mar/10 24

Quando o iPad foi lançado, em janeiro de 2010, veio a bomba: não há suporte ao Flash. Minha primeira reação, e a de muitos outros na web, foi “Steve Jobs, eu odeio você”. Afinal, é muito cara de pau dizer que o novo dispositivo ofereceria “the ultimate browsing experience” quando uma grande porcentagem das “ultimates experiences” na web está na plataforma Flash. Get used to the Blue Legos. Até Hitler ficou bolado.

Mas eu parei para refletir (e ler um zilhão de artigos relacionados) e hoje posso dizer: Obrigado, Steve Jobs. Entenda o porquê.

A primeira razão desse agradecimento é que isto obriga a Adobe a se mexer. Seu Flash Player está tão difundido no mercado, que é praticamente inviável pensar em fazer aplicações ricas para a internet (quando eu digo ricas, não falo apenas de botãozinhos elegantes) sem ter que gerar um swf. Silverlight, Java? Esqueça. Ninguém supera os 90% de penetração da Adobe. E como acontece em qualquer mercado, a dominância absoluta gera desleixo e preguiça.

openscreen

E a resposta da Adobe já estava em desenvolvimento desde o lançamento dos primeiros iPhones sem Flash: The Open Screen Project. Unido aos maiores líderes da indústria da tecnologia como Nokia, Google, Motorola, LG, entre outros, com exceção da Apple, óbvio, a empresa liberou os direitos do formato SWF para qualquer dispositivo, além de tornar open-source diversos frameworks e disponibilizar o Flex SDK para download. A SDK é o compilador utilizado para gerar arquivos swf. Portanto, você pode utilizar programas de desenvolvimento totalmente gratuitos, como o Flash Develop e criar arquivos swf sem ter que pagar um tostão sequer à Adobe.

Com isso, a difusão maior do Flash Player em QUALQUER dispositivo faz com que a vida fique muito mais interessante. Imagine criar um aplicativo, apenas um, que rodará em todos os browsers, celulares, televisões, relógios, carros, privadas, piscinas, etc, etc , etc. Isso não é um sonho maravilhoso para desenvolvedores e clientes?

E o iPhone continua de fora? Não mais, o novo Flash, o CS5, permitirá exportar arquivos no formato de aplicativos para iPhone. Ponto para a Adobe.

E mais, Tobias Schneider criou um Flash Player feito em puro JavaScript. O que significa que é possível rodar swfs sem plugins nenhum. Visite estes links no seu iPhone e surpreenda-se.

A segunda razão do agradecimento: toda a atenção voltada para o HTML5. A informação sobre isso de repente se multiplicou. Muitos se apressam em dizer que é o fim dos plugins, e, principalmente, o fim do Flash, pois com o HTML5 seria possível fazer tudo que o Flash faz. Será mesmo? Acompanhe-me.

1 – Você conhece CSS, você conhece HTML. Você já fez diversos websites bacanas. Quantas vezes você não quis destruir o seu CPU porque em cada browser seu website funcionava de uma forma diferente? E isso com coisas simples, como a posição de um botão. Imagine como será desenvolver aplicativos 3D, com linguagens visuais ultra complexas com HTML5. Prepare-se para perder cabelos.

2 –“ HTML5 Will crash too”. Muitos reclamam que o Flash player trava demais. Mas isso é uma afirmação um quanto ingênua. Pense: onde mais pessoas estão tentando desenvolver motion detection3D runtime ultra robusto ou vídeos pornográficos personalizados com a sua foto? Flash permitiu aos desenvolvedores explorar os limites da criatividade, mas também os obrigou a ter bastante cuidado com performance. E esse cuidado requer grande habilidade com códigos, o que nem sempre é acessível a todos. E o resumo da ópera é o seguinte: saiba que um monte de sites em HTML5 vai congelar seu computador também. Quer um exemplo prático? Visite este link demonstrando o tão esperado <canvas> tag no seu iPhone e no seu browser e note a VISÍVEL diferença de performance.

3 – Tenho certeza de que a Adobe está amando HTML5. Os padrões atuais são os principais impeditivos para que o Flash Player possa fazer mais do que já faz. Há 10 anos o Flash vem empurrando as barreiras do que é possível fazer na web e estou certo de que continuará assim. Se agora códigos HTML puros poderão fazer o que o Flash faz hoje, ótimo, pois poderemos nos preocupar com os próximos passos. Realidade Aumentada, novas formas de navegar, interações nunca antes pensadas, este sempre foi e continuará sendo o caminho do Flash.

4 – Veja 25 exemplos de sites supostamente ultra modernos feitos em html5. Lembrando que só funcionam em alguns browsers (esqueça o Internet Explorer). Agora dê uma olhadinha no FWA, que mostra os mais interessantes websites de toda a web. Sacou a diferença? Moderno, ao meu ver, é muito mais que botãozinhos que mexem suavemente.

5 – E claro, não poderíamos nos esquecer da tag <vídeo>. Antes de sair por aí dizendo que HTML5 será A solução para vídeos, veja a palestra de um dos principais desenvolvedores da nova linguagem, Ian Hickson, quando ele fala sobre os formatos e codecs. “There is no solution yet”. Mergulharemos na era das trevas pré-flash quando não havia padrões para vídeo novamente?

Enfim, não estou aqui para defender a Adobe. Pode ser que o Flash pereça mesmo. Mas é óbvio que quem está envolvido com Flash tem uma visão de empurrar os limites e isso é imperecível. E eu faço minhas apostas de que a Adobe vai continuar gerando soluções interessantes para suprir esta demanda pelo novo, pelo instigante, por aquilo nos emociona na web. E se não for a Adobe, será outra. A visão inovadora que o Flash nos trouxe não terminará.

E a terceira razão são as novas possibilidades de negócios, pois os clientes precisam comprar mais para se manter presentes em todas as mídias. Quero experimentar de tudo. Aplicativos para o iPhone? Em breve um cabanudo numa Apple Store perto de você. E uma dica: prestem atenção no Unity3D (mais um plugin!), ele vai explodir em 2010.

Apesar de estar tão agradecido, continuo odiando o Steve por algumas razões. Estou com um iPhone faz 2 meses e agora posso dizer:

1 – Tudo bem, você diz que Flash é lixo e será substituído. Pode ser. Mas até lá o que faço? Quantas e quantas vezes eu precisarei enviar um link pra mim mesmo, “esse site deve ser o máximo, vou enviar o link pro meu email e ver quando estiver em um CPU de verdade”?

2 – A Apple Store não é a web. 15000 aplicativos? Que lixo! Muito chato você me dizer o que posso ou não usar no meu iPhone.

3 – Ok. Mas eu te perdôo por essa navegação touch que você criou. Tenho que dar o braço a torcer.

No entanto, o mesmo que disse sobre a Adobe também se aplica à Apple. Domínio absoluto nos SmartPhones: arrogância, inflexibilidade às demandas do mercado. Será que alguém vem no caminho? Por enquanto, o Google Nexus One parece fazer frente. Que, aliás, roda o Flash Player magnificamente.

Pablo Cabana

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3 Respostas para “Html5, Flash, iPad, iPhone, Steve Jobs – O pitaco Cabanudo”

  1. Leonardo Diz:

    Não sou geek, e entendi o lance com este seu post. O texto está bem escrito, claro de se entender. Valeu pelas informações!

  2. Pablo Cabana Diz:

    Que bom! Achei que só a galera hightech iria entender. Mas essas infos mostram bem as novas tendências do mercado, e o vídeo do Hitler também é hilário! :)

  3. Do Ipod para o Ipad « eardreams Diz:

    [...] implementar as tecnologias necessárias. Porem será que o mercado está pedindo por um tablete pc? Que aliás não suporta flash mas sim HTML 5. Mas isso na verdade não chega a ser um problema, pois o suporte foi resolvido de outra maneira. [...]

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